A mulher de ontem ainda é a mulher de hoje

(Foto: Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell)

O ano é 2018. O dia é sábado. Clara abre os olhos e com muita preguiça se levanta da cama para ir à padaria comprar os deliciosos pãezinhos do Seu João. No caminho cumprimenta seus vizinhos e brinca com o cachorro Chico, que fica sempre à porta da floricultura para recepcionar os clientes e para ver o movimento da rua.

Próximo à padaria, Clara se depara com uma mulher que parecia ter saído de um filme antigo, tipo final da década de 60, com aqueles cabelos cheios de volume, delineador nos olhos formando o famoso gatinho, minissaia e bota de cano alto.

Clara ficou tão curiosa que começou a se questionar se a moça não estava ali fazendo alguma sessão de fotos pra alguma revista ou gravando algo. E de tão distraída nem percebeu que o farol estava fechado. Ao atravessar a rua, só ouviu buzina bem forte e o barulho de pneu freando.

– Olha pra rua sua anta! Tem que ser mulher mesmo pra andar tão distraída – disse o motorista furioso.

Ainda assustada, Clara xingou o homem e correu para a calçada, sendo abordada pela mulher misteriosa.

– Moça, você está bem? Que cara louco…como pode ainda nos dias de hoje falar assim com uma mulher?

– Pois é, esse cara tá doido, mas é que eu estava distraída mesmo…na verdade, estava curiosa com o seu estilo…é bem anos 60 e adorei – disse rindo.

A moça misteriosa soltou alta gargalhada e, então, confirmou que vivia, sim, nos anos 60. Um pouco preocupada, Clara riu de nervoso e chegou a achar que a mulher era doida.

– Isso é impossível! Estamos em 2018.

– Ah, claro, mas me diz, nos anos 60 vivemos tempos revolucionários para a mulher em questões morais, éticas e sexuais. Trocamos as saias rodadas pelas minissaias, usamos roupas que os homens também usam, como terninhos e calças jeans…sem falar nossa luta por direitos iguais, principalmente por salário e poder de decisão. E, então, chego aqui e vejo você ser xingada por um mané machista…quer dizer que não evoluímos nada?

– Olha, moça dos anos 60, porque não sei o seu nome.

– É Marta, mas pode me chamar de Martinha – indagou a moça cheia de atitude.

– Ok, Martinha…vamos lá. Eu não sei o que você tomou logo cedo, ou se realmente acredita viver nos anos 60, mas a questão é que ainda hoje a mulher luta por igualdade. Se sairmos com roupa curta nos chamam de vagabunda e se a mulher é abusada sexualmente continuam a julgar que a culpa é nossa, ou da nossa roupa. Sem falar que ainda ganhamos menos que os homens e muitas vezes o nosso cargo está acima do deles. Ainda é difícil ser mulher, mas você não pode acreditar que não evoluímos…nada foi em vão, continuamos lutando.

Martinha não consegue dizer nenhuma palavra de imediato e Clara percebe que seus olhos estão cheio de lágrimas. E, por um momento, pensa se a louca é a mulher ou ela mesma, porque realmente parece abalada com tais revelações.

– Calma, Martinha! Nem tudo está ruim, temos grandes mulheres que fazem a diferença, estamos unidas e nos protegendo, seja nas ruas, seja no ambiente de trabalho. O mundo está ouvindo nossa voz!

– Mas, é triste ver como se passaram décadas e algumas coisas idiotas, como o uso de roupas curtas, causa opiniões nojentas de homens.

– Estamos vivemos um movimento muito importante de fazer, não só homens, mas toda a sociedade a enxergar que a nossa luta é pela liberdade e sem julgamento. Queremos oportunidades iguais, direitos iguais e tudo isso sem medo da violência – física ou psicológica.

– Isso, Clara! A luta nunca acaba! A mulher tem que continuar a brigar por seus direitos.

Clara só conseguia pensar que sair em um sábado de manhã nunca tinha sido tão doido. Entusiasmada com a conversa voltou ao assunto sobre Martinha dizer que vivia em outra década – o que gerou discussão sobre o possível e o impossível e, também, sobre sua própria sanidade. Martinha, que estava um pouco chateada, mas também feliz em ver que a mulher enfim tomou o seu lugar como chefe de família, conquistou altas posições de trabalho e tinha mais liberdade, pegou Clara pela mão e a levou em frente a vitrine da loja de roupas perto da padaria. E então perguntou:

– Clara, o que você vê no reflexo da vitrine?

Neste momento, Clara estava paralisada e revezava o olhar entre a vitrine e Martinha.

– Meu Deus! Tô ficando doida…real e oficial. Só vejo meu reflexo, mas quando olho para o lado você está aqui. Como pode? Você está morta? Estou vendo espírito ou estou louca mesmo? Todo mundo deve estar rindo de mim, estou falando sozinha.

– EXATO! Quer dizer, não sobre você estar louca, mas, sim, você só se vê no reflexo porque eu sou de outra década, mas ainda estou dentro de você. A luta da mulher de ontem ainda está enraizada na mulher de hoje e aí dentro existem outras tantas mulheres incríveis de outras décadas…basta olhar e vai perceber o que temos a dizer e como podemos trabalhar juntas. Como uma única voz podem ser várias, na verdade.

Clara, aos prantos, não conseguia dizer palavra alguma, então se voltou para a imagem da vitrine e fez breve reflexão sobre o que Martinha acabara de dizer. Enfim, achou as palavras para agradecer aquela doidinha que falava pelos cotovelos e trazia tantas verdades.

– Mart…Martinha? Martinha? Ela foi embora? Pirei de vez? Será que ainda estou dormindo ou será que foi real? Foi real…foi real…quero acreditar nisso e em tudo que me disse. É isso…ela está aqui…todas estamos aqui. Cara, que dia louco.

Com sorriso largo entrou, finalmente, na padaria e pediu ao Seu João quatro deliciosos pãezinhos e seguiu mais confiante ao caminhar para casa após conversar consigo mesmo. Passou por Chico, o cachorro recepcionista e também “fifi” da rua, e seguiu sorrindo para mais uma manhã gloriosa de sábado.

 

Milene Rolan
(Redatora, Editora e Repórter do Feijoada Completa)

10 comentários sobre “A mulher de ontem ainda é a mulher de hoje”

    1. Ahhh Mel, linda. Ficamos muito felizes que tenha gostado porque é uma inspiração para nós…com o seu blog lindo e cheio de histórias maravilhosas de tantos lugares. Beijo grande e continue acompanhando nossa mistura. Beijos.

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