Musical sobre Elza Soares invade São Paulo e reforça luta das mulheres na atual sociedade

Dia 26 de outubro, sexta-feira à noite, o dia em que as emoções estavam a flor da pele com a aproximação do segundo turno das eleições, que elegeriam o próximo presidente do Brasil. Saio da estação Fradique Coutinho à procura de táxi pra ir até o Sesc Pinheiros, assistir ao musical Elza, que há tempos estava ansiosa para assistir. No caminho me deparo com boas almas, que estavam fazendo plantão na porta do metrô para conversar com pessoas indecisas em quem votar. Paro na rodinha, peço alguns adesivos de Fernando Haddad, colo um no peito, e assim faço sinal para o táxi.

Naquela noite esperava me emocionar, por conta de toda onda de amor e esperança que pairava o ar, só não fazia ideia do tamanho da emoção. Paro na comedoria do Sesc e depois me dirijo ao teatro Paulo Autran. Toca o terceiro sinal, anunciando que o espetáculo já vai começar, desligo o celular e vejo as luzes se apagarem. Esse é o momento que mais gosto quando vou ao teatro.

Foto: Leo Aversa/Divulgação

O palco é tomado por sete lindas e poderosas mulheres, que em cima de latas começam a contar a história da diva Elza Soares. A banda que incorpora a história também é formada somente por mulheres. Histórias que ali foram contadas tinha conhecimento e outras não. Me emocionei com a encenação forte das atrizes, assim como as músicas interpretadas de maneira brilhante, que transitaram por composições além do repertório mais recente e político de Elza, como sucessos regravados pela cantora, a exemplo da canção “O Meu Guri”, de Chico Buarque de Hollanda, que faz parte da cena em que a cantora, interpretada por Larissa Luz, chora a morte de seu filho com o jogador de futebol, Mané Garrincha.

O talento indiscutível das atrizes se harmoniza com os números encenados que retratam a violência doméstica, o racismo e o machismo, causando reações imediatas na plateia, que se levanta diversas vezes sob aplausos e gritos. A atriz Larissa, que lidera o grupo e dá vida à Elza, impressiona pela semelhança física e o talento vocal, que em diversos momentos faz parecer ser a própria cantora pela semelhança do timbre até mesmo quando não está cantando.

Com direção de Duda Maia, texto de Vinícius Calderoni, direção musical de Pedro Luis, idealização e direção de produção por Andréa Alves o espetáculo ficará em cartaz, em São Paulo, no Sesc Pinheiros, até o dia 18 de novembro.

O musical não dispõe de grandioso cenário, o que deixa a trama ainda mais interessante, usando objetos simples que conseguem te transportar para as situações que ali são relatas. Baldes, jogos de luzes e diferentes figurinos dançam entre si e projetam momentos de luta, glória e de profunda tristeza que Elza vivenciou ao longo de seus 81 anos.

O fim do espetáculo é marcado por atos que enaltecem a luta das mulheres negras, ainda nos dias de hoje, e frases impactantes como: a fala estilhaça a máscara do silêncio. Falar é existir e resistir – que imediatamente são respondidas pelo público com “ELE NÃO”. Sem dúvida, aquele não era um dia fácil para a maioria das pessoas que ali estavam e que se apegavam à esperança de um resultado eleitoral diferente daquele que engolimos no dia 29 de outubro. Por vezes, as atrizes se emocionaram e respiraram fundo pra continuar. O show tem que continuar. Sempre.

Sob aplausos e gritos o musical termina. Ao meu redor era possível ver pessoas emocionadas e agradecidas por ouvir uma história linda, de luta, de resistência e de esperança. Meu coração bateu mais forte, sai de lá mais confiante, mais fã e com a certeza de que os dias sombrios que vamos enfrentar serão confortados com a herança musical de grandes artistas, que assim como Elza, nos encoraja na canção “O que se cala”, de seu mais recente disco “Deus é Mulher”, a não nos calarmos porque afinal “minha voz uso pra dizer o que se cala. Ser feliz no vão, no triste, é força que me embala. O meu país é meu lugar de fala”.

 

Serviço:
Musical Elza
Em cartaz até 18 de novembro
Horário: Qui. a Sab. às 21h – Dom. e Feriados às 18h
Local: Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros – Rua
Valor: R$ 50,00  (inteira) | R$ 25,00 (meia entrada) | R$ 15,00 (Credencial SESC)

Mais informações no portal do Sesc Pinheiros, clique aqui.

Até a próxima,

 

Milene Rolan, Redatora do Feijoada Completa.

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