“Eu não sou um homem fácil” leva o espectador a reflexão sobre a luta das mulheres por direitos iguais

Ao exibir papéis invertidos a trama leva mulheres a refletirem sobre o machismo e a desprezar a possibilidade de terem as mesmas atitudes

Qual é a mulher que nunca desejou, mesmo que por um momento, que os homens vivessem na pele dela para lidar com o preconceito, humilhação e assédio que as cercam diariamente? Pois bem, esse imaginário pode ser visto através do filme Francês “Eu Não Sou Um Homem Fácil”, do diretor Éleónore Pourriat, lançado em fevereiro de 2018 e com produção da Netflix (Duração: 1h38 minutos).

A trama estrelada pelo ator Vincent Elbaz apresenta o comportamento de um homem machista, que em todas as situações de sua vida aborda e insulta, grotescamente, as mulheres e após bater a cabeça acorda em uma sociedade invertida, passando a sentir todas as humilhações e sensações vulneráveis que a mulher é exposta.

Como mulher digo que inicialmente senti enorme prazer em ver homens “naquelas situações”, me permitindo até em soltar altas gargalhas e falar em alto e bom som: bem feito. Como na cena em que uma mulher se nega a ter relações sexuais com o homem que não depilava o peito e as pernas, ou aquela outra sequência em que todas as mulheres mexem com ele na rua e, ainda, o momento em que a aprovação de um projeto que vinha batalhando há tempos dependia, somente, que fizesse um “favorzinho sexual” à sua chefe.

No começo foi legal e divertido ver tudo isso acontecendo, assim como na produção nacional “Se Eu Fosse Você” que lotou as salas de cinema em todo o país e contou com a interpretação dos talentosíssimos atores Glória Pires e Tony Ramos (quem aí não se lembra desse clássico?), só que depois de um tempo o filme começou a causar certo incômodo, porque não posso achar graça de algo que me atinge e faz mal, mesmo quando são eles que estejam passando por isso.

Crédito: Google

O que queremos é respeito, igualdade nas diversas áreas de nossas vidas, e o que estava assistindo ali era nojento. O tipo de comportamento que jamais gostaria de ter.

A situação inversa exibida ali na TV do meu quarto, em uma noite qualquer em busca de alguma distração, me proporcionou profunda reflexão do quanto absurdo é o que vivemos e, ainda, me fez compreender e identificar diversas situações em que sofri com o machismo. E esse pensamento não é somente meu, pois conversando com algumas amigas a mesma opinião foi compartilhada, onde reforçaram que ao assistir o filme começaram a se sentir mal por imaginarem a possibilidade de ser “aquela mulher”.

Em um mundo machista, em que as mulheres lutam há décadas por direitos iguais, sofrendo preconceitos e humilhações no trabalho, em eventos sociais, em ambiente familiar ou até mesmo ao andar “tranquilamente” pelas ruas, ser mulher não é uma tarefa fácil e para aqueles que acham/julgam o feminismo coisa chata e que atualmente só se fala sobre isso, se liga nessa realidade:

Imagem protestante na Avenida Paulista (Crédito: Milene Rolan)

O preconceito mais praticado no Brasil é o machismo, onde 61% dos entrevistados de um levantamento feito em 2017, realizado em todas as regiões do país, assumiram já ter tido atitudes machistas e dizer frases preconceituosas, como: mulher tem que se dar ao respeito.

Por isso, o filme desperta diversos sentimentos que se misturam em prazer, ao ver o outro vivenciar na pele o que para nós é “normal”, e repulsa – em não desejar que alguém sofra tais injustiças e rótulos, exemplificados muito bem na trama, ao abordar a questão de forma tão escancarada e profunda, criando assim questionamentos e reflexões. Seja em homens ou mulheres. O enredo é impactante e provoca o espectador a pensar, agir e mudar.

Até mais,

Milene Rolan, redatora do Feijoada Completa.

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